Buscar
  • Juliana Mariz e Lia Abbud

Mix de emoções pós-maternidade pode levar a mulher a reprimir sentimentos por medo de julgamento

Atualizado: 16 de Mai de 2019

Psiquiatra comenta sobre o impacto do cansaço e do isolamento social na saúde mental das mulheres durante o puerpério, período intenso no qual é importante que a oscilação das emoções da mãe seja acompanhada de perto na tentativa de identificar casos de depressão.



Psiquiatra é especializada no atendimento a mulheres durante a gestação, pós-parto e puerpério

Foi durante sua residência médica em um ambulatório para gestantes que a psiquiatra Juliana Cavalsan, 37, decidiu qual seria o foco principal de sua atuação: mulheres no pré-natal, pós-parto e puerpério. “Escolhi atuar na relação mãe-bebê para tentar ajudá-las a viver a maternidade de uma forma mais leve e, indiretamente, também promover a saúde mental dos filhos.”


A intensidade dos primeiros meses de maternidade leva ao cansaço e a uma avalanche de emoções que precisam ser acompanhadas de perto. Há casos e casos: o blues puerperal, por exemplo, é passageiro, não requer tratamento e costuma desaparecer cerca de 15 dias depois do parto; nos casos de depressão, é fundamental o acompanhamento médico para que mãe e bebê possam seguir em frente da melhor maneira possível. “Uma mulher deprimida não consegue dar conta adequadamente dos filhos. Em casos graves pode até acabar negligenciando a criança -- porque realmente não consegue cuidar, dar banho, amamentar --, agindo de forma mais agressiva e sem paciência alguma.


Há realmente um ciclo bastante complexo a ser administrado no puerpério. Em primeiro lugar, um mix de emoções que reúne culpa, arrependimento, tristeza, insegurança, angústia. Em segundo lugar, a necessidade de adaptação a uma nova rotina, muito solitária no início, vale lembrar – os primeiros meses de um bebê trazem consigo um isolamento social. Como resultado, um conflito interno que muitas vezes leva a mulher a “abafar” alguns de seus sentimentos por medo de ser julgada ou mal interpretada. Prefere não conversar sobre eles porque entende que seria uma espécie de “confissão de fracasso”.


Confira abaixo os principais trechos da entrevista com a psiquiatra, em que destaca a importância do papel do companheiro, das redes de apoio e das rodas de conversa.


1. De que forma a carga mental decorrente da maternidade afeta a saúde das mulheres no puerpério?

Juliana Cavalsan - No puerpério, a mulher enfrenta sobrecarga física e mental. Física pela privação de sono e pelo cansaço de todo o processo de acordar várias vezes, carregar, amamentar. E mental porque estamos falando de um bebê que depende exclusivamente de outro ser humano para absolutamente tudo, principalmente da mãe. Além disso, essa mãe nem sempre sabe cuidar dessa demanda, principalmente nos primeiros meses, em que ela ainda está conhecendo o filho. No começo, é difícil saber se o choro é de fralda cheia, fome, dor ou apenas um pedido de colo. Isso gera uma ansiedade na mulher, que acha que não está fazendo nada certo e que não vai dar conta. É uma sobrecarga mental muito grande. À medida que o bebê vai crescendo, isso tende a diminuir.


A idealização de um amor materno mágico que surge no instante em que o bebê nasce também se transforma em sobrecarga emocional. É importante pontuar que essa é uma construção ao longo da vida, que vai ficando cada vez mais intensa e profunda conforme o vínculo vai sendo estabelecido. Então é muito comum a mãe se sentir angustiada porque não sente esse amor imediatamente – e aí passa a questionar se gosta do filho, sente-se ansiosa e triste.


2. Existem sintomas que funcionam como alerta para que a mulher perceba que precisa de ajuda?

Juliana Cavalsan - Sim, há diversos quadros e sinais que merecem atenção. O babyblues ou blues Puerperal acomete cerca de 85% das mães. É uma situação que não precisa de tratamento, mas não deixa de ser uma sobrecarga. Neste quadro, ela fica chorosa, triste, arrependida de ter tido filho, com a sensação de que não vai dar conta e com medo. Em teoria, o Blues deve durar cerca de 15 dias e remitir. Quanto ultrapassa esse tempo é um sinal de alerta de que talvez essa mulher esteja num processo depressivo.


Mães com histórico de transtornos ansiosos e depressivos também devem ficar alertas porque têm mais suscetibilidade a desenvolver novo quadro, principalmente se já apresentou algum sintoma não tratado (ou parcialmente tratado) durante a gestação. A experiência indica que 50% das mulheres com depressão pós-parto já começaram a apresentar os sintomas na gestação.


Mulheres ansiosas também apresentam piora no pós-parto: o pensamento constante é de que o bebê pode não estar bem, então checam toda hora se ele está respirando e ficam muito incomodadas com a limpeza dos visitantes.


É muito comum o pensamento de que elas próprias podem, de alguma maneira, causar um dano ao filho, como afogar na banheira ou sufocar enquanto amamenta. Mas são ideias que elas dificilmente conseguem compartilhar com alguém, pela vergonha e pelo medo de serem julgadas. É um pensamento muito angustiante, que elas sabem que é absurdo, mas não conseguem controlar ou barrar.


3. Qual o papel do companheiro nestes casos?

Juliana Cavalsan - Cada um tem de exercer seu papel. Não gosto de falar de “ajuda”, porque dá a impressão de ser um favor, e não é. No pós-parto, entendo que o pai da criança deve contribuir para deixar a rotina mais leve pra todo mundo. É fundamental que ele também acorde de madrugada, troque fralda, dê banho e participe de tudo. Ele só não pode amamentar, isso caso o bebê esteja mamando exclusivamente no peito. Não podemos perpetuar essa ideia de que no começo o bebê só quer saber da mãe e que ela então tem de dar conta de tudo sozinha. Isso resulta numa sobrecarga muito grande.


É importante que o homem faça a parte dele: passe tempo com o filho – junto com a mãe e também sozinho --, conheça suas preferências. Esse compartilhamento de responsabilidades reduz a sobrecarga e, consequentemente, as chances de adoecimento dessa mulher.


O suporte social também é algo que faz toda a diferença. Qual é a rede de apoio que essa mulher vai ter quando o bebê nascer? Marido, mãe, sogra, babá, prima, vizinha? Quem vai fazer o quê? É um fato que quem não conta com esse suporte tem mais probabilidade de adoecer.


Quando o bebê nasce, essa mulher naturalmente já tem de se submeter a um isolamento social, o que desencadeia uma angústia e pode levar à depressão, porque, de repente, além das novidades todas e da sobrecarga, ela para de trabalhar fora de casa, sai menos, encontra e conversa com menos gente e fica muito à disposição do bebê, especialmente até conseguir regular a amamentação.


4. Existe uma grande dificuldade das mulheres em conversar com o companheiro/companheira sobre essa questão da divisão de atribuições ligadas à casa e aos filhos que em geral recaem sobre a mulher. Como a sra. enxerga essa questão?

Juliana Cavalsan - Vejo essa dificuldade em conversar como resultado de uma culpa que ela carrega por achar que não está dando conta, como se cuidar de tudo relacionado à casa e aos filhos fosse uma obrigação exclusiva dela. Falar sobre isso seria, portanto, uma espécie de “confissão de fracasso”.


Como normalmente as mulheres têm a licença-maternidade e os companheiros voltam a trabalhar muito antes, elas tendem a poupá-los à noite para que não estejam cansados no dia seguinte – é também um mecanismo de controle da situação, em alguns casos. Ao mesmo tempo, temem a interpretação que pode ser dada à sua fala sobre cansaço e divisão desigual de tarefas: de que não gostam do filho, de que não são boas mães. O medo do julgamento inibe as mulheres de falarem a respeito do assunto com quem está ao seu redor.


5. Qual a importância das rodas de conversa e das redes de apoio neste contexto?

Juliana Cavalsan - Acho fundamentais, porque fazem parte do suporte social que mencionei. É uma forma de estar em contato com outras mães que estão passando pelo mesmo processo, o que torna mais fácil falar sobre medos e inseguranças. Normalmente, as mães empatizam muito, porque todas estão buscando esse espaço de fala e de escuta, este local de compartilhamento. Mas é importante buscar um grupo com o qual se identifique, onde se sinta confortável e à vontade para falar, para abrir seus medos. Espaços em que o foco está na comparação e no julgamento não vejo como saudáveis.


6. Alguns profissionais (psicólogos, doulas e educadores parentais) defendem a existência de cursos de pré-natal emocional, um mergulho no fluxo emocional da família antes da chegada do bebê. Como você enxerga essa novidade?

Juliana Cavalsan - São muito importantes, porque os cursos clássicos são voltados apenas à saúde física da mãe e do bebê. E a quantidade de mulheres que têm uma visão idealizada e romantizada da maternidade é assustadora. O bebê real é um, o bebê que a mãe imaginou por nove meses, outro. Ninguém imagina não dormir, não amamentar, não dar conta. O pré-natal emocional aproxima os casais da vida real, de quais serão as necessidades e responsabilidades no novo cenário.



8 visualizações0 comentário