Buscar
  • Juliana Mariz e Lia Abbud

A importância da solitude para a mulher se entender como prioridade

Atualizado: 3 de Jun de 2019

Formada em Direito e Jornalismo, Rita Monte tem uma trajetória vasta de estudos, práticas e experiências que a colocam como uma das principais pesquisadoras das questões da maternidade. Ela é coach de mulheres e mães em transição, ministra palestras em empresas sobre mercado de trabalho e maternidade e é criadora de um programa de aprimoramento dirigido a quem trabalha com mulheres.


Casada e mãe de Ivo, de cinco anos, Rita considera que o maior cansaço da maternidade é o impacto emocional que a chegada de um filho causa em uma mulher. A partir desse arrebatamento, a mãe tem de reconstruir sua identidade. Mexendo em seu cachinhos enquanto toma um cappuccino, ela nos contou como lidou com a exaustão de sua própria maternidade e reiterou a importância do autocuidado e da auto-observação.


Rita defende que toda mulher precisa de solitude para se entender como prioridade também.

Para esclarecer ainda mais sua linha de pensamento moldado ao longo de horas de atendimento individual e em grupo, ela recorreu ao verso “Mãe é Mar”, da música "Sorrir e cantar como Bahia", dos Novos Baianos, uma de suas canções preferidas. A imagem do ir e vir das ondas do mar remete ao movimento de esvaziar e encher que mães devem fazer para equilibrar o doar-se e o preservar-se. “Mãe tem a necessidade de recolhimento e solitude, num lugar de férias da maternidade, no lugar de deixar eu esquecer que sou mãe por um tempo. Esse vazio mental é fundamental para manter a sanidade e fazê-la lembrar que é uma mulher em primeiro lugar. Ela tem a identidade dela”, ela diz.


A seguir, a entrevista completa.



Para Rita Monte, o cansaço materno é mais emocional do que braçal.

Você trabalha especificamente com mães há cinco anos. Como o tema cansaço chega até você através dessas mulheres?

Eu trabalho com maternidade, mas lido com mulheres em todas as fases, de mães de primeira viagem à avós, portanto, consigo ter um espectro grande de elaborações sobre maternidade. É muito rico e, diante dessa diversidade, há diferentes respostas para essa pergunta. Mães de bebês vivem mais claramente esse esgotamento. É um impacto muito grande quando o bebê nasce, especialmente se é o primeiro. Cadê eu ? Cadê meu espaço? Não é só um cansaço do trabalho braçal, do cuidar, é emocional. É um cansaço do trabalho de ter de se buscar de novo. Isso é muito sutil e invisível e, se tratamos assim, muitas vezes é descartado.


Você quer dizer que é necessário falarmos mais sobre o cansaço emocional ?

O cansaço materno pra mim é muito menos do trabalho braçal e mais desse trabalho emocional de se perder de si e não saber para onde foi. É o cansaço vindo do impacto emocional do “me tornei mãe” e do perceber que ser mãe não é apenas uma coisa que faço aqui em casa, mas sim uma identidade nova que se derrama para todas as outras relações. Em seguida, o que percebo é que as mães entram num “modus operandi” de doação e não conseguem sair dele por causa de uma inércia forte difícil de ser quebrada. É necessário uma energia gigantesca dessa mulher em romper esse ciclo do filho-marido-casa, que estão sempre em primeiro plano, ao passo que ela nem sabe em qual plano está. Mas ela vai tirar energia de onde? E nesse processo tem muita culpa envolvida. Como vou me colocar no mesmo plano de prioridade do meu filho? Posso fazer isso? Não estou falando para a mulher esquecer o outro, estou dizendo pra ela entender que se ela não estiver suprida nas necessidades dela, ela vai pesar na relação com o filho.


O quanto disso advém de uma questão cultural?

Nós guiamos nossas escolhas a partir do que aprendemos sobre o que é ser mulher e é ser mãe. A gente não parou para pensar sobre isso. Esse aspecto “invisível” do impacto da maternidade na vida da mulher, é, a meu ver, o que gera cansaço. Mas enquanto continuar a ser invisível e ninguém falar sobre isso, a mulher vai ficar cada vez mais isolada. E pra sair dessa cerca ela vai ter de lidar com culpa. São lugares muito delicados que temos de trabalhar para trazer essa mulher para o mesmo plano de prioridade do filho. São fôrmas sobre o que é ser mulher, o que é ser mãe, o que é ser uma boa mãe. Tudo isso esbarramos antes de falar de autocuidado da mãe.


E qual é a importância do autocuidado para uma mãe?

Vamos pensar na música dos Novos Baianos “Mãe é mar”. Para mim ela vai na essência da força da maternidade, desse arquétipo da mãe que é, de fato, uma doação que enche e esvazia, como o mar. Está sempre ali naquele movimento: vai, doa tudo e depois recolhe. Esse é a imagem perfeita. Mãe tem a necessidade de recolhimento numa solitude, num lugar de férias da maternidade, no lugar de deixar eu esquecer que sou mãe por um tempo. Esse vazio mental é fundamental para manter a sanidade e fazê-la lembrar que é uma mulher em primeiro lugar. Ela tem a identidade dela. Na minha opinião o autocuidado da mãe está nesse lugar do recolhimento para ela se encontrar com o vazio dentro dela. Tem de fazer isso periodicamente. Do jeito que ela pode. Se é passando um creme por cinco minutos depois do banho, que seja. Mas tem de passar o creme com essa intenção de vazio. Pode ser tomando um café sozinha, mas o importante é a intenção do vazio, de ficar consigo e esquecer que é mãe. Por que a gente sai, volta e continuamos sendo mães. Isso pode ser um peso absurdo se eu não encontrar um espaço onde só eu moro dentro de mim . Autocuidado para mim é uma ética. É um modo de fazer. Como eu exerço a maternagem ? Me cuidando.


Como você lidou com o cansaço quando tornou-se mãe?

Primeiro momento que eu percebi que estava exausta foi quando Ivo tinha um ano e meio e o Vitor, meu marido, estava nos Estados Unidos fazendo um curso. O problema é que calhou do Ivo ficar doente e eu também. Tive minha primeira crise de sinusite crônica na vida, aos 35 anos, faringite, febrão. Eu precisava de cuidados e tinha de cuidar do Ivo. Comecei a fazer uma reflexão e ver minha situação de fora. Eu precisava descansar para me recuperar, mas estava de madrugada amamentando. Quando percebi o que estava vivendo, me deu raiva. Eu pensei: “Quer dizer que para ser uma boa mãe eu tenho que adoecer? O que eu fiz pra chegar nesse ponto? E como as pessoas a meu redor cuidaram de mim?” Me dei conta que não relaxava desde o trabalho de parto. Essa raiva da situação foi bem-vinda porque me tirou do torpor. Pra mim ser uma boa mãe é eu estar saudável para cuidar do meu filho. E se eu precisar parar de amamentar na madrugada e dormir vai ser isso que eu vou fazer. A partir daí comecei a pensar no que mais precisava fazer para me nutrir. Foi uma grande sacada.


Mas antes de fazer essa reflexão e chegar a uma conclusão, muitas mulheres ficam ressentidas com a situação, com as pessoas próximas. Concorda?

É bem delicado. É muito necessário ter auto-observação para poder entender onde foi que eu entreguei meu poder para o outro. E onde estou me vitimizando e achando que não posso pedir ajuda. Uma mulher vitimizada fica tão ensimesmada que ela supõe que está todo mundo vendo que ela precisa de coisas, mas ela não pede e se afunda ainda mais nessa posição. É super delicado. Eu trabalho com isso pelas bordas. Aos pouquinhos, durante o processo, a gente vai compreendendo que ela perdeu o poder pessoal, que ela está muito fragilizada. E buscamos saber o que ela pode fazer para sentir de novo a energia vital circulando. Comunicar suas necessidades só acontece quando há energia. Quando essa mulher está desvitalizada ela não se sustenta em uma conversa, de modo a se vulnerabilizar. Ela precisa se nutrir primeiro, receber um colo das amigas, das mulheres e daí ela consegue trazer suas necessidades com integridade, com auto respeito. É um processo.


Ao se cuidar ela consegue se posicionar melhor em suas relações?

Autocuidado tem a ver com mulheres se reconhecendo como mulheres porque é desse lugar que vamos abrir conversas. Não é acusando o companheiro. A gente quer parcerias. E pra conseguir que essa conversa aconteça eu preciso primeiro estar muito tranquila em entender qual é a minha condição de mulher, quais são minhas necessidades. Precisamos entender o que é ser mãe nessa sociedade e porque essas dores estão tão profundas. Por isso, estudos e rodas de conversas são fundamentais. Essa entrevista é fundamental. Para começar a iluminar, nomear, tornar visíveis essas dores que são comuns.

77 visualizações0 comentário